FESTA MARGARIDA SOFIO

 

Tema "Festa"

"Festa",

de Margarida Sofio

 

Para mim, “Festa” é um estado de espírito, dependente de um conjunto de situações e emoções que podem enquadrar um simples e ocasional momento. Facilmente confundo “Festa” com “Felicidade” porque apenas uma linha muito ténue as separa. Julgo que é fácil haver “Felicidade” sem “Festa”, a “Felicidade” será a própria “Festa” mas “Festa” sem “Felicidade” é muito mais difícil acontecer.

Personalizando, a minha “Festa” foi vivida ao longo dos anos, de três modos diferentes.

- Na minha infância e parte da minha adolescência: vivi em “Festa”. A “Festa” vinha até mim.

- Durante algum tempo da minha vida adulta: fiz a “Festa” e tentei que à minha volta a sentissem.

- Nos últimos anos: a vida afastou a “Festa” e tornou difícil a minha participação nela, embora não desistisse de a viver.

Era uma “Festa” acordar todos os dias, abrindo a janela e vendo o mar.

Ir para o colégio, rindo e brincando, dando cabo da cabeça do Manel, que estava encarregado de me levar e trazer para casa. Nessa época, (1945) na Madeira, os homens e os rapazes é que se encarregavam dos trabalhos domésticos porque as mulheres trabalhavam nos Bordados. O Manel, talvez com os seus quinze anos, aturava as minhas traquinices, fugindo-lhe pelo caminho, muitas vezes para o armazém da “Leackoc” de portas escancaradas convidavam a uma corridinha, pelo meio daqueles enormes pneus.

Era uma “Festa”, debruçar-me demais nos muros da ribeira de S. João, quando ia cheia.

Era uma “Festa” subir a Avenida do Colégio, especialmente quando as “castanholas” dos Jacarandás já estavam secas e serviam de arma de arremesso, para os colegas que iam encontrando. Até era uma “Festa”, quando pouco depois de entrar na sala de aula, ter de sair a correr para a irmã Josefina não pôr as mãos na cabeça, aliás nas asas brancas que lhe cobriam os cabelos, dizendo-lhe que lhe apodrecia o soalho… as irmãs eram da Congregação de S. Vicent de Paul e usavam uma espécie de coifa branca na cabeça, com umas asas abertas, parecendo que iam voar. Nem mesmo o médico que tantas vezes visitei, pensou na intolerância do leite que fazia parte do meu pequeno-almoço…já nesta época a minha sensibilidade (não só ao leite) era posta à prova…

Era uma “Festa”, voltar para casa e ter à espera o meu grupo de amigos, de tantas aventuras ou em dias de chuva, ter o meu cantinho de brincar, onde já experimentava os meus dotes de cozinheira e de “designer” de moda, costurando para as minhas bonecas.

Era uma “Festa”, jantar cedinho ao domingo, vestir o vestido mais bonito, sair com os meus pais, passar pelo bar do teatro, comprar uns “drops” que só ali se vendiam e que tinham um travozinho ácido, que eu adorava. Seguir avenida abaixo, sentar um pouco na esplanada de “Golden Gate”, onde os meus pais bebiam o seu café e seguir para o Cais onde normalmente assistíamos à chegada das lanchas que traziam para terra, os passageiros dos navios que ficavam ao largo.

Era uma “Festa”, quando numa dessas vezes, ao assistir à chegada duma lancha, cheia de Cadetes dum Navio Escola, creio que da Irlanda, a minha irreverência infantil, fez-me dizer em voz alta o que me ia na cabeça, porque achei um pouco estranha a figura dum deles, muito alto e magro, e com um longo pescoço, e muito avermelhado:

- Parece-me um perú!...

Seguiu-se uma cena das que costumava ver dos desenhos animados. O Cadete corre para mim, abrindo os longos braços como se fossem asas, pegou-me ao colo e no meio das risadas, inclusivé dos meus pais, embora assustados, dançou comigo pelo cais fora fazendo o caraterístico ”glu, glu, glu”…

Foi uma lição que trouxe para a vida. Não consigo lidar com qualquer tipo de discriminação. Mas foi uma “Festa”…

Seguia-se a ida ao cinema, onde tive a sorte de poder assistir à chamada “Época de Ouro” do cinema, principalmente musical. Anos 40/50. Ganhei uma cultura cinéfila que me mostrava um mundo que existia, tão longe da minha verdade. Foi uma grande “Festa” esta, embora algumas vezes voltasse para casa, com a cidade às escuras, acompanhada pelo som sinistro dos aviões alemães que voando a grande altitude se dirigiam para a Norte de África…mas vinha com a alma em “Festa”, cheia das maravilhas a que tinha acabado de assistir.

E grande “Festa” aconteceu, quando aos cinco anos comecei a ler e tive acesso aos livros e revistas que povoavam a minha casa e me permitiram cedo conhecer a maravilha das histórias e explorar o mundo para além do “Garajau”, aquele penedo enorme que parecia limitar a Ilha.

Havia ainda a “Festa Maior” da minha infância, mundialmente festejada, nós conhecemo-la por Natal. “ Navidad” em Espanha, em França “”Noel” e os ingleses e os americanos chamavam-lhe “Christmas”.

Para os madeirenses é simplesmente “A Festa”.

– Já fiz o “Bolo de Mel da Festa”…

- O meu filho vem cá passar a “Festa”…

É por integrar uma população inteira, nela pode caber muitos dos significados que lhe queiramos dar, ela é para todos os madeirenses, simplesmente a “Festa”.

Para mim foi uma convivência que trouxe para o resto da vida.

Os festejos natalícios, começam no dia um de Dezembro com a inauguração da mágica iluminação das ruas da Baixa do Funchal, e em algumas freguesias e termina após os Reis, as “Oitavas” e por vezes ainda o” Varrer dos armários”, em meados de Janeiro.

Garanto que esta magia é vivida do mesmo modo, de quando esperamos que o Menino Jesus nos encha o sapatinho, na Noite de Natal, da que mais tarde sentimos quando somos nós que fazemos de Menino Jesus.

Há duas formas diferentes de nos lares madeirenses festejar o nascimento de Jesus. A lapinha em “Escadinha” e a lapinha de “Rochinha”.

O meu Presépio tinha a forma de “Rochinha”.

Várias caixas de cartão eram cobertas com papel pintado com “viochene”, reinventando a própria Ilha, imitando as suas montanhas, vales, levadas e uma gruta que receberia o Menino sobre a manjedoura, S. José, Nossa Senhora, os Pastores, a vaquinha, o burrinho e mais tarde os Reis Magos.

Mantenho ainda as figuras que resistiram ao tempo e hoje são o Presépio do meu quarto.

Este foi o meu primeiro Presépio, em 1940.

Enquanto em todos os lares, se procedia às limpezas que antecediam a “Festa”, a cidade enchia-se dos pregões dos rapazes que desciam dos montes, com ramos de pinheiro que perfumavam a lapinha e era colocado no seu topo. Traziam também uma espécie de rizomas de fetos, donde saiam rebentos verdes e que eram colocados nas rochas do Presépio, chamadas “cabrinhas”! Apregoavam com uma certa picardia: “senhoras, cabras. Meninas, cabrinhas”.

Vendiam também uma espécie de trepadeira que valia pelo seu comprimento, quase ao metro e que rodeava a lapinha. Era o “Alegra Campo”.

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As fotografias revelam a “Noite do Mercado”, uma verdadeira Festa popular, também a iluminação da cidade. A música de muitos conjuntos musicais, com os seus típicos instrumentos, atravessando as ruas…

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A alegria das pessoas, o cheiro da carne de “Vinha d´alhos”, o colorido dos frutos expostos e, no meu caso, a sempre esperada visita às livrarias, de onde sempre trazíamos algo novo. A vivência destes dias era estendida aos meus padrinhos, visto não haver mais família na Ilha.

A todas as iguarias madeirenses, sedo a principal o Bolo de Mel, e muitíssimos licores, a minha mãe acrescentava sempre as filhós, as azevias e os nógados do Natal Elvense.

Entretanto chegam as Missas do Parto, que principalmente nas freguesias rurais são um culto popular muito festejado em louvor do nascimento de Jesus, assim como a Missa do Galo.

Depois do Dia de Natal, passado em família, cedo chega a tradicional e internacionalmente conhecida noite de “Fim do Ano”, quando a Ilha se transforma num enorme e belo anfiteatro de luz e cor. Lembro-me de assistir ao desespero dum repórter americano, incapaz de gravar todas as imagens a que assistia…

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Sentido de Festa que vivi. Não podia ignorá-lo neste desafio, por isso assim o inclui e desenvolvi.

De repente a Madeira ficou lá longe, não esquecida mas Évora passou a fazer parte da minha “Festa”. Chegou o tempo de eu fazer a “Festa” e tentar que os que me rodeavam participassem dela. Profissionalmente, na maior parte dos meus trinta e quatro anos, quase sempre me senti em “Festa”. Nem sempre tudo corria bem o tanto que fui aprendendo e fui transmitindo, foi um enfrentar de desafios que sempre muito me entusiasmavam.

Pessoalmente os desafios foram mais difíceis de enfrentar. O casamento e a chegada dos meus filhos, foram a grande “Festa” que neste tempo vivi e também o tempo em que a tal linha ténue entre “Festa” e “Felicidade” mais se confundiram.

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Mas foram desaparecendo as pessoas que sempre foram o meu suporte e o objetivo da minha “Festa”. Começou uma luta não perdida mas também não vencida. Só a chegada e o acompanhamento dos meus netos diluiram um pouco este desafio, que é difícil e constante e também para tentar driblar o avanço da idade, na “Festa” que é o dom da minha vida.

Vou aprendendo a valorizar o que me é oferecido.

As coisas mais simples, passaram a ter mais significado.

Um calmo majestoso pôr do sol...

Uma planta que de repente desabrochou...

A vida teima em mostrar-me que a “Festa”, que é a minha, ainda faz parte de mim...

Então Festejemos.

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