ÉVORA ANTÓNIO LOURO ALVES
Tema "Évora"
"Évora",
de António Louro Alves
“Eis a nobre cidade, certo assento
Do Rebelde Sertório antigamente,
Onde ora as águas nítidas de argento
Vem sustentar de longe a terra e a gente,
Pelos arcos reais que, cento a cento,
Nos ares se alevantam nobremente…”
Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, Canto III, Estrofe 63
Como falar da minha cidade?
O que dizer de Évora, quando tantos já a cantaram?
Poderia falar dos seus monumentos, dos seus becos, das suas ruas, da sua grandeza e da sua pequenez, dos seus palácios e dos seus casebres abandonados.
Dos Homens e Mulheres que honram a sua memória. De quem por aqui passou e disso houve testemunhos.
Talvez recordasse Afonso Henriques, Vasco da Gama, Mestre Gil, dos Capitães de Abril que aqui se encontraram, rumando a Alcáçovas para a sua primeira reunião.
Seria capaz de ir buscar Frei Manuel Cardoso, Diogo Dias Melgaz e outros meninos de Coro da Sé de Évora. Ou falar do Cónego José Augusto Alegria, meu professor, que estudou e divulgou o Património da Escola da Sé. Ou de Florbela Espanca, ou ainda do seu afilhado Túlio, eterno divulgador de Cidade.
Não. Está tudo escrito. Eu não tenho capacidade para isso.
Évora que não és minha
E o que eu gostava de ter:
Moira cativa e rainha,
Que não pude converter!
Miguel Torga – Canção a Évora
Évora não era de Torga. Mas será minha?
É a cidade onde nasci, onde estudei, onde sempre vivi , mesmo quando a Vida me levou para fora.
Sim. Évora é minha, mas também de tantos que lá nasceram, viveram, amaram, fizeram família. E também da gente humilde. Gente que ninguém canta. Gente que não se deixou “converter”.
Vem-me à memória o Torcato José Ramalho.
O Torcato havia perdida uma perna e tinha um taco de madeira a substituí-la. E era vê-lo colocar a perna em cima de mesas de bilhar e com ela jogar. Não tinha grandes resultados, mas que tentava, tentava.
O Torcato, dizia, só tinha um inimigo, o “caruncho”, mas tinha grandes amores, nomeadamente, o vinho e o seu Sporting.
O nosso homem morava para os lados da Rua Mendo Estevens e, sentado no poial duma porta, fazia grandes relatos imaginários do seu SCP. “E Carvalho coloca a bola nos pés de Hilário, este passa a Géo que cruza para a cabeça de Osvaldo Silva e é Goooooooooooooooooooooooooooooooooooolo, goooooooooooooooooooooooooolo do Sporting!
Certa noite, uma vizinha, cansada deste alarido todo, no meio do relato, chega à janela e manda para cima do Torcato uma panela cheia de água. O nosso amigo não interrompe o “relato” e diz, “neste momento chove copiosamente em Alvalade”.
O Torcato era muito amigo do Joaquim José Roberto, o “Rosca”, que uma vez, apanhado por um polícia caído no chão com grande bebedeira e lhe diz “Ó Rosca, sempre bêbado, sempre bêbado, sempre bêbado”, lhe responde “ Então e tu, sempre polícia, sempre polícia, sempre polícia”.
Também é de pequenas narrativas, de gente humilde, que se faz a História das Cidades.
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