ÉVORA MARGARISA SOFIO

 

Tema "Évora"

"Évora", 

de Margarida Sofio

 

Quando há uns anos, desocupei a casa dos meus pais, um dos momentos mais silenciosamente gritantes da minha vida, encontrei numa das gavetas do meu antigo roupeiro, um caderno de “poemas” meus. Comecei a escrevê-lo com 13 anos, já em Évora. Alguns desgostos de amor, levados à dor maior, cheios de grande dramatismo juvenil. Porém o primeiro foi escrito meses depois da minha chegada à Planície. Eram versos cheios de revolta e espelhavam bem o meu sentimento para com uma cidade, melhor um ambiente que detestei. Ainda por cima a minha sonhada e prometida frequência numa Escola de Ballet, feita pelos meus pais ainda no Funchal, não foi possível, não existia Escola de Ballet em Évora… um sonho que não se concretizou…

Foi um tempo de uma difícil e demorada integração. Tudo era diferente e levei muito a perceber que a diferença estava mais em mim e nas saudades que me perseguiam dum tempo e de uma infância feliz. Ainda sem amigas, comecei a calcorrear sozinha as ruas, que me começavam a enfeitiçar, pela curiosidade dos seus nomes (morava perto da Travessa do Pão Bolorento) e da brancura das suas casas. Tomava como referência a P. do Giraldo, o Jardim e o Largo da Misericórdia que visitava quase diariamente, recordando os Jacarandás que ladeavam a Av. do meu Colégio, no Funchal. Pouco a pouco Évora passou a ser uma diária e maravilhosa descoberta, o que ainda hoje acontece quando inesperadamente surge um pormenor que se mantinha escondido.

O Templo de Diana, impressionou-me logo, talvez por me transportar a épocas diferentes.

O Liceu, conquistou-me, pisando os seus magníficos Claustros, caixinha de tantos segredos, os azulejos, as cátedras das salas e a sua imponente frontaria que tanto me encantou. Até o cheiro característico da majestosa Sala dos Atos, ainda hoje recordo.

A Sé, que foi muitas vezes refúgio, em dias difíceis ou muito quentes, com os seus Claustros, calmos e frescos. Também gostava de visitar o seu Zimbório, que me permitia alcançar Évora, na sua plenitude e na sua luz. E a luz, a sua luz que sentia especial, talvez por incidir ao mesmo tempo, na pedra dos seus monumentos e cantarias e na brancura da cal. Por isso, adoro esta frase de Miguel Torga…”E na mais rasa das planícies (o alentejano) ergueu essa flor de pedra e de luz, que é Évora”…

foto Margarida 1.jpg

E hoje, o que é Évora, na minha vida?

Como é a minha Évora do Presente?

Ultrapassado o desconforto inicial, o impacto da Évora Monumental, reina comigo a Évora dos Sentimentos. Um local de Esperança, de Amor, de Agradecimento. Tudo aqui experienciei…

A minha formação para a vida, o encontro do companheiro de caminhada, o nascimento e o acompanhamento do percurso dos meus filhos e netos, a companhia durante muito tempo da minha base familiar de sempre, os meus pais.

Uma vida profissional onde encontrei espaço para poder ser, muito do que ansiava poder, como ajudante na aprendizagem dos meus alunos, que continuaram, muitos na minha vida e todos no coração. A possibilidade de já avançada nesta minha viagem, poder ainda viver um tempo de amizade e camaradagem, fazendo o que de bem nova (9 anos) iniciei e um dos meus maiores prazeres, o Canto Coral.

Obrigada por isso, Coral Évora.

Nesta minha Évora dos sentimentos, mantenho vivo muito do que aqui vivi, no meu “Bosque”…

Uma romãzeira que cresceu dum ramo que trouxe da minha primeira experiência profissional, nas Aldeias de Montoito. A minha cerejeira japonesa, linda na sua floração rosa que sempre coincidia com o Carnaval e por isso serviu de cenário para todos os meus netos, nas suas fotos carnavalescas. A base do meu grande pinheiro, que me fez passar uma tremenda noite de tempestade, com o coração apertadinho e que logo no dia seguinte foi sacrificado. Tinha sido plantado pelo meu marido, num Dia da Árvore. As Estrelícias que vieram da Madeira e hoje estão lindas. A Flor do Paraíso que com a sua beleza e perfume, torna o meu bosque lindíssimo na Primavera. Veio há séculos de casa da Avó Margarida, em Elvas. A madressilva, que a minha amiga Inácia, ajudante das lides caseiras, durante quase uma vida, plantou depois de me ouvir falar, vezes sem conta, da saudade que tinha do seu cheiro, do meu quintal do Funchal. A hera que trouxe da jarra da secretária da sala que o meu filho frequentou durante 4 anos. O cato veio comigo, escondido no porão do navio Pátria em 1952, quando deixei a minha terra. O meu abacateiro, descendente dum abacate madeirense que comi, fiz germinar o caroço, plantei-o e hoje é o meu orgulho…e muito mais…

E sim, tudo na vida tem dois lados e Évora também é para mim o cenário de despedida e memórias dos que amei e me foram deixando.

Évora, não foi o meu berço mas é sem dúvida o cantinho muito amado, onde vou vivendo, a Dor e a Felicidade que a vida me destinou.

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