MAR ANTÓNIA MENDES

 

Tema "Mar"

"A praia da Esperança",

de Antónia Mendes

 

A PRAIA DA ESPERANÇA

A todos os migrantes e refugiados

A guerra bateu-te à porta, assim sem avisar, ela estava na tua rua. Feita de aço e de lume, potente, intensa, apinhada de crueldade, barbaramente entrou em casa demolindo todo o bem do teu pequeno paraiso! Sózinho gritaste sem voz que te ouvisse porque a ruina desfez o teu entendimento. E o tempo passou e trouxe com ele a arma que tens nas mãos e o vazio de quem enfrenta a batalha! Não és mais o mesmo, conheces a dor e o cheiro da morte! Sentes o combate que te arranca a vontade de viver e o vento da discórdia briga na tua alma noite e dia. Derrotado querias vencer, mas neste sofrimento não há glória. Assim no rasto do juizo procuraste a evasão.

Naquela noite a praia vestida de mágoa via a sombra dos que fogem à guerra refugiarem-se na suave embarcação. Abatidas, as ondas roçavam a areia enganando a quietude das águas. O espaço sufocado, latejante de angústia migrou pelo oceano boiando ao alcance da luz. Mais tarde o sono venceu trucidando a inquietação e trouxe com ele a vida e dias de felicidade.

Mas a irregular flutuação despertou o perigo. Levantou-se o vento bravio obrigando o mar a vomitar a água. As vagas investiam às mais atrozes subidas e nesse ultrage, serpenteando como o mais impiedoso chicote, enfrentavam a debilidade da barca. Ninguém se ouvia porque o mar bramia de raiva e o céu em tumulto, ruidosamente desferia centelhas de lume, bracejando num clarão cruzado em pleno assalto da tormenta. Os lamentos emudeceram pelo rancor das águas e a cegueira das trevas açoitava o choro das crianças. A areia revolta, as conchas despidas, lascadas pela desordem remigravam do fundo do abismo para revelarem às rochas o insulto, afrontontando a insolência do mar. Assim, agilmente elas mergulham dissimulando os seus rugosos corpos e quando a barca desnorteada se retira para desertar, golpeiam-lhe as entranhas, arrevesando o seu interior! Evocados pelas profundezas, os corpos caldeiam-se nas águas, aturdidos debatem-se na luta, disputando pedaços de madeira solta do que fora a sua tenda. Com forças inutéis flutuam à deriva. Em frente a praia silenciosa, olha o naufrágio. Destroços perdidos estendem-se pela areia, aqui e ali pedaços de morte misturam-se com os corpos dispersos, martirizados pelas águas. Tinhas o cabelo encrespado pelas garras da maré. A robustez abandonou-te pela exaustão, quebradas as forças, o mar por tortura devolveu o teu corpo à terra seca. Desse modo, exposto como nada, tudo te doía, teimando o mar salgado em afogar-te o rosto e as ondas em inundar o que restava de ti. Ouves gritos, mas os olhos desistentes fecham-se ao universo. As palavras açaimadas instruiram-se no silêncio. Não acreditas mais, porque os sonhos também enganam! Alguém se encosta ao teu coração. Depressa aquecem o que a impiedade deixou e levantam-te a cabeça para que a coragem não te abandone. Não sabes onde estás, o que fazes deitado na areia da praia. Só quando o pescador, entre um choro golpeado, grita ao mar: “este está vivo”! 

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