VAGAR FRADIQUE
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Tema "Vagar"
"Vagar",
de António Louro Alves (Fradique)
Como estou com algum vagar, pus-me a pensar no “Vagar”.
O que é isso de vagar?
Vou ao dicionário e não gosto da definição, confesso.
“Faz boa viagem, mas vai devagar”; “come devagar”; “devagar se vai ao longe”, ouve-se a toda a hora. São conselhos sensatos que ouvimos e que nós também damos.
“Estás a ir muito devagar e empatas o trânsito todo”, “ele trabalha muito devagar”. Já não são conselhos. São críticas.
Mas, sinceramente, continuo sem saber o que significa “vagar”.
É um estímulo? Um pedido? Uma crítica?
Estranha, mas rica, palavra esta.
Procuro na música, no cante do nosso Alentejo, nas mornas e coladeiras de Cabo Verde, do Blues dos negros americanos. Falam da saudade, dos campos, da ânsia da Liberdade, cuja importância só percebemos quando dela estamos privados. Mas de vagar, nada.
Vagarosamente, ligo o rádio.
Passa música de Ennio Moricone. Escuto “Gabriel’s Oboe”, do filme “A Missão”.
“A Missão”, aquele filme de 1986, no qual o Padre Jesuíta Gabriel (Jeremy Irons) vai para a terra dos Guaranis, na América do Sul, com o propósito de converter os nativos ao Cristianismo. Rapidamente ele constrói uma missão, juntamente com Rodrigo Mendoza (Robert De Niro), um comerciante de escravos em busca de redenção. Quando um tratado transfere a terra da Espanha para Portugal, o governo português quer capturar os nativos para o trabalho escravo. Mendoza e Gabriel protegem a missão, discordando da realização da tarefa.
Vem-me então à memória o Padre jesuíta José de Anchieta, nascido em Espanha, em 1534, mas que, ingressou na Companhia de Jesus em Portugal e foi missionário no Brasil. Esteve ligado à fundação das cidades de S. Paulo e Rio de Janeiro.
Certa vez, José de Anchieta precisou de se deslocar entre S. Paulo e Rio de Janeiro. Pediu a colaboração duns índios que, de pronto, aceitaram colaborar com o missionário.
Mas o Padre não tinha vagar. Disse aos nativos que precisava de estar dentro de oito dias no Rio.
Os índios responderam que não podiam fazer 80 léguas em tão pouco tempo. Acrescentaram que precisavam de, pelo menos, 10 dias.
José de Anchieta retorquiu que tinha mesmo forte necessidade de respeitar a data de chegada ao destino.
Descontentes, mas, mostrando o respeito e amizade que tinham para com o sacerdote, acabaram por aceitar.
No primeiro dia andaram 15 léguas. No segundo outro tanto.
Ao terceiro dia, de madrugada, o padre encontra os índios sentados junto a uma imponente árvore.
- “Que se passa? Vamos partir”.
- “Não podemos. Vamos ficar aqui sentados à espera”- respondem os índios.
- “À espera do quê”? Pergunta Anchieta, perplexo.
- “À espera das nossas almas. Viemos tão depressa que deixámos as nossas almas para trás. Agora vamos estar por aqui até que elas cheguem”.
Finalmente descubro o que é o “Vagar”.
Significa “não perder a alma”.
E como o Mundo precisa de Vagar.
Évora, escrito vagarosamente no início da 70º volta em torno do Sol.
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